quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Aristéia, fonte de vida e experiência

João de Sousa, Lili, Wescley e Aristéia


Fiquei surpreso quando, na tarde do dia 28 de janeiro, abri o email enviado pelo amigo e pesquisador João de Sousa Lima, comunicando o falecimento da ex-cangaceira Aristéia.

Logo me veio a memória o início do mês de junho de 2011, quando tive a oportunidade de conhecer aquela mulher de uma grandeza e força inquestionável, e a fragilidade de uma menina no auge dos seus 98 anos. Essa é uma boa lembrança que Fortaleza me deixou como marca indelével.

Não sei ao certo distinguir os sentimentos que se misturavam e imbricavam naquele momento, apesar da experiência enquanto historiador, as teorias a respeito das fontes e documentos, eu via naquela mulher mais do que uma ex-cangaceira, mais do que uma fonte para compreender o fascinante e complexo mundo do cangaço.

Como nos lembra o filósofo Walter Benjamin, aquela era uma fonte de experiência, um livro que nunca será escrito devido a sua complexidade, um livro que nunca será lido e compreendido no seu todo devido a sua profundidade. Temos que nos contentar, enquanto historiadores, curiosos, pesquisadores e estudiosos do cangaço, com os pequenos vestígios que vão sendo deixados, haja vista a vida humana ser muito mais do que podemos entendê-la e condensá-la em palavras.

As experiências vivenciadas por Aristéia naquele meio áspero do cangaço, que ela fazia questão, inúmeras vezes, de salientar que aquela era uma “vida de cão”, sofrimento, que não guardava nenhuma saudade daqueles tempos idos, infelizmente morreu junto com ela. Mais uma fonte de história e vida se esgotou, resta-nos satisfazer-nos com os seus depoimentos, em linguagem simples, por vezes tímida, pragmática, mas com uma riqueza inquestionável.





Inacinho, Pedro, Murilo, Damares, Wescley, Aristéia e Lili


Alguns pesquisadores questionam a importância daquela mulher para o cangaço, haja vista não ter tido uma participação efetiva no meio do bando e ter passado pouco tempo no conviveu dos cangaceiros, relegando-a a um patamar inferior. No entanto, sempre questionei essa visão, pois, como nos é ensinado nos bancos acadêmicos, não podemos hierarquizar fontes, fontes são fontes, cada uma com suas peculiaridades, limitações e riquezas.

O grande valor daquela mulher foi, sem sombra de dúvidas, a sua experiência. Talvez muitos pesquisadores não davam-lhe grande crédito porque ela não dizia o que nós queríamos escutar, ela não fazia apologia ao cangaço, revestindo-o com as vestes do heroísmo, mas não cansava de afirmar a miséria daquela vida, o quanto aquilo era ruim, depoimento que acaba convergindo para o que afirmavam as ex-cangaceiras Sila e Adília.

Durante as mais de duas horas que passei conversando com dona Aristéia no quarto daquele hotel, entre risos, lágrimas, raiva e dor, pude beber daquela fonte, deleitar-me com tanta sabedoria advinda daquela mulher já marcada pelo tempo, com o corpo frágil e as rugas que dava-nos a dimensão do tempo vivido por ela e da credibilidade de suas palavras.

Lembrava com saudade das comidas do cangaço, talvez única lembrança boa guardada na sua memória referente ao tempo de bandoleira, de como os cangaceiros cozinhavam bem. Revirando os escombros da sua memória trazia a tona o cheiro dos perfumes usados sob aquele sol escaldante das caatingas sertanejas. Parecia está novamente tendo em mãos aqueles frascos com odores de um passado remoto. Eis a riqueza da memória, primeira guardiã da história, primeira forma de história, sem rigidez de método, técnica, rigor acadêmico, mas sim seguindo as suas próprias nuanças, as do tempo vivido, das experiências.

Resta-nos apenas a lembrança daquela mulher e a alegria de um dia ter os nossos caminhos se cruzado. Que o repouso eterno possa trazer-te a paz que tanto almejavas, sem dores, sofrimento e perseguição. Fica a saudade!


sábado, 22 de janeiro de 2011

O Valor da Vida



Esses dias, navegando no Orkut, acabei me deparando com a imagem acima. É inevitável não ficarmos bestificados e condoídos diante da sensibilidade do fotógrafo ao captar essa imagem. Simples e bela, assim poderia defini-la. Um brilhantismo que fala por meio das minúcias, dos pequenos detalhes.

Quantos de nós com o nosso “achismo” e “centralismo”, como se o mundo girasse em torno do nosso umbigo, não percebemos que no nosso entorno há problemas maiores, pessoas que não estão preocupadas com a roupa que vão vestir, o perfume e maquiagem que usarão, ou a festa da noite e as notícias que serão vinculadas nas colunas sociais.

Há pessoas que estão lutando por uma coisa de extrema valia, a VIDA, dom tão supremo, tão valioso que todas as riquezas do mundo não pagaria uma vida humana. No entanto, a cada dia a vida está sendo banalizada. Estamos perdendo a nossa capacidade de se condoer com o sofrimento do outro, de chorar as dores do nosso irmão. Infelizmente estamos perdendo o nosso espírito de fraternidade.

Somos mais do que roupas, poder aquisitivo, grau de instrução... Parece que estamos ficando tão bitolados que estamos perdendo a noção dessa verdade universal, imutável! Esquecemos que antes de tudo somos irmãos, independente do credo religioso, pois somos parte de uma mesma família, mesma espécie.

É evidente que não é a futilidade do cabelo que faz falta a criança da foto, mas sim a saúde, o direito que quando ela nasceu lhes foi dado de viver, de correr pelas ruas, campos, praias, sorrir com os seus, ser embalada nos braços dos que ela ama, cair e chorar como qualquer criança da sua idade.

As lágrimas dessa menina veem carregadas de dor, não a que seria própria para a idade dela, mas a dor do mundo dos adultos, a dor que sorrateira e ladrona invade o mundo mágico dessa idade para tentar ceifar a sua vida. Seus olhos só pedem para viver, unicamente e exclusivamente isso, viver.

Nos seus ombros frágeis caí um peso maior do que eles, e ela, com sua fragilidade, vai levando com coragem; talvez com um sorriso no canto da boca que nos ajuda a pensar como somos felizes por estarmos vivos e saudáveis.

Meus caros, se você por um momento, através da visualização dessa imagem, não foi capaz de se condoer com o sofrimento dessa criança que representa a dor de outras milhares, preocupe-se, porque tu estas deixando de ser humano e tornando-se uma máquina sem capacidade de ser dotada de sentimento.

Digamos um sim a vida. A cada amanhecer agradeçamos a nova oportunidade de contemplarmos a chance que nos é dada!


Prof. Wescley Rodrigues

domingo, 16 de janeiro de 2011

Colapso do Sistema Prisional Brasileiro


Nos últimos anos se prolifera no cinema brasileiro, produções que visam representar a realidade do crime organizado que infelicita a nossa sociedade. É notório que estamos à beira do colapso social, no qual os padrões estão mudando e o cidadão trabalhador e honesto, está sendo obrigado a viver trancafiado nas suas casas, enquanto que, o criminoso toma as ruas, praças e favelas como micro-poderes que estão além do poder estatal.

Uma produção cinematográfica brasileira bastante interessante é o filme 400 contra 1, dirigido por Caco Souza. Nele, que tem como recorte temporal as décadas de 1970 e 1980, o diretor apresenta ao público como o Comando Vermelho foi gestado em pleno período da Ditadura Militar no Brasil.




Haja vista a riqueza da produção é inevitável que não pensemos como o nosso sistema prisional acaba contribuindo para a formação de marginais. Essa nossa ideia apresenta-se como extremamente problemática, pois, antes de tudo, as cadeias, penitenciárias e presídios teriam como principal objetivo, através do trancafiamento dos indivíduos que não podem conviver socialmente, reabilitá-los e inseri-los novamente no conviveu comum.

Mas, na realidade, o que temos ali é uma verdadeira universidade do crime, onde os sujeitos aprisionados saem diplomados nas peripécias da criminalidade, enquanto que o trabalhador comum tem que na labuta cotidiana trabalhar para, através dos impostos pagos ao Estado, sustentar os criminosos, assaltantes, traficantes, estupradores, etc., nos “hotéis do Estado”, pois é assim que podemos dizer que são as cadeias públicas.

Reconheço que são péssimas as condições de aprisionamento desses sujeitos, que são amontoados, muitos em condições desumanas. Daí nos perguntamos: Sairia mais barato para o Estado providenciar cadeias que reeduquem os criminosos e dêem condições deles se reabilitarem e voltarem dignamente ao convívio social, ou continuar a tomar medidas paliativas no referente a segurança pública, que são verdadeiros curativos que apenas estancam momentaneamente a mazela social?

Hoje, o domínio do crime organizado nas favelas, presídios e cidades, é apenas um reflexo de como o nosso sistema está deficitário e clama por soluções imediatas. Enquanto os discursos de melhoria da segurança não saírem da mera oratória oficiais, estaremos à mercê dos mandos e desmandos da criminalidade, veremos os papéis sociais se inverterem e a paz esvair-se por entre os nossos dedos; continuaremos a assistir assassinatos em série, estupros, roubos, ou mesmo chacinas nos presídios, onde sangue corre como rio, entre os corredores fétidos e imundos.

É preciso “Vigiar em Punir”, mas com dignidade, respeito e coerência, se não, estaremos a cada dia alimentando a semente do declínio da sociedade brasileira.


Prof. Wescley Rodrigues